"Sentada no trono de espelhos, ela espera. Em seu reino de
espinhos, o vento sopra. Onde ele a levará agora? Pouco resta de suas terras
devastadas afinal, pouco além das cinzas que o fim dos mundos deixou para trás. Ela
traga a Morte para dentro de si, suturando a ferida em seu orgulho. Fragmentos
pontudos rasgam seus pulsos quando o ódio, trancafiado nos confins mais
obscuros de seu peito, lhe obriga a apertar o vidro rachado, semicerrando os
olhos encharcados, e seu sangue jorra no reflexo dantesco. Ela está em fúria,
enfrentando pura e simples dor inimaginável. Por que não se parte de uma vez? Por que
seu coração insiste em bater?
O que há de errado?
A menina, garota, mulher, ergue-se e caminha por entre o
jardim, perfurando seus pés a cada passo e deixando um rastro de si para trás.
Nenhuma lágrima cai. Na imensidão não há vida ou esperança, nada que possa
guiá-la. Ela não precisa, atingira seu objetivo de uma
forma ou de outra, e o que tinha em mãos não era nada mais do que a
promessa de um futuro, porém um futuro vazio. Um futuro vermelho, cinza e
preto.
Há guerra por toda a parte, esta é a verdade. Guerras incessantes rasgando seu
passado e seu presente, sua alma podre. As labaredas que nunca se apagam,
devorando, consumindo, tudo que um dia ela fora ou que lhe pertencera. Tudo.
Uma vida, uma morte.
Contradizendo expectativas e possibilidades... a criança sente o desejo ardente de erguer seu sussurro num grito.
Não, sua pequena
guerra pessoal ainda não chegou ao fim. Algo também a espera.
O vento outra vez ressoou num assobio musical. O som,
entretanto, provinha dos lábios de Cedric, junto à porta do salão principal.
Ele a fitava com um sorriso tímido, porém venenoso, o bastardo infiel...
- Tente não se perder, Irium... – Cedric deu meia volta e
partiu para o corredor.
Ela esfrega os olhos, suspirando, e segue com ele arrastando seus pés, sonolenta. Em que
estava pensando mesmo?"